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Fim do lixão do Aurá cria legião de catadores deserdados - Nós Na Mídia

Economia

05/06/2016 às 10h44 - Atualizada em 05/06/2016 às 10h44

Fim do lixão do Aurá cria legião de catadores deserdados

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FONTE: O Liberal

Foto: Everaldo Nascimento/O Liberal

Quase um ano após o fechamento do Aterro Sanitário do Aurá, em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém, muitos catadores que viviam exclusivamente do trabalho na área estão em situação crítica. “Tem gente passando fome, pois não tem de onde tirar o sustento. Não tem emprego, não tem nada”, diz Jorge Gomes da Conceição. “Antes, eu conseguia tirar R$ 300,00 por semana. Agora, para conseguir R$ 100,00 por semana, é cruel”, diz ele, que trabalhou 12 anos no lixão. Jorge usa uma carroça, puxada por um cavalo, para sair todos os dias à procura de materiais recicláveis, entre os quais garrafas pet, para vender. Ele tem oito filhos e dez netos. 


Ele lembra, saudoso, dos tempos em que ganhava a vida no lixão. “Ficamos aqui igual um cara em uma canoa, mas sem remo. Ficamos sem nada. Batalhando, pelejando, fiquei 12 anos. Eu comia e bebia de lá. Era para meu sustento e o de minha família. Estou vendendo o almoço para comprar a janta”, diz, para completar. “Prometeram tanta coisa... Prometeram que iam fazer o galpão para empregar muita gente. Mas deixaram a gente matando cachorro a grito, na roça”, diz Jorge, que deixou de receber até os R$ 77,00 do Bolsa Família. “Quebrava um ‘galhinho’. Tiraram há quatro meses”, afirmou ele. Na identidade, Jorge tem 58 anos, mas garante que é mais velho. “Uns 60 e lá vai porrada”, afirmou, com bom humor. 


“Com o que ganhava lá, eu pagava minhas contas, incluindo o aluguel. Agora, não. Moro emprestada (de favor)”, afirma Delma Borges, 34, que trabalhou no lixão durante 18 anos. Para se manter, e sustentar os quatro filhos, sobrevive com o dinheiro do Bolsa Família. No começo, trabalhava no lixão durante o dia. Mas, por causa do sol forte, começou a catar os produtos a partir das 17 horas, ficando até 8 da manhã do dia seguinte. “Dava para faturar até R$ 170, 00 por dia de trabalho”, conta. “Eu vendia lá dentro mesmo esse material”. Agora, Delma mora em uma ocupação, uma das que surgiram no entorno do lixão e na qual residem os catadores sem condições de pagar aluguel. “Pode abrir minha geladeira que nem água tem”, dz Delma, que conta com a solidariedade dos amigos, com os quais divide a pouca comida.


Maria do Socorro Silva Martins, 40, trabalhou 20 anos no lixão. “Comecei de dia, depois passei para a noite, mais frio. Era um tempo bom. A gente catava material reciclável e ainda trazia alimento e outras coisas que a gente achava lá dentro: roupas, sapatos, perfume, celular, danone, mortadela. Até cesta básica de alimentos”, lembra. Famílias e supermercados jogavam no lixo alimentos que, muitas vezes, poderiam ser doados. “A gente trabalhando lá em cima (do lixão) não quer saber se (o produto) está ou não na validade. Tem muito supermercado que prefere jogar fora do que fazer doação”, reclama Socorro, que cuida de crianças e também depende da ajuda de outras pessoas.  


Associação de catadores quer contrato para utilizar galpão abandonado 


“A situação é crítica. Depois que fechou de vez (o lixão), tornou ainda mais complicada a vida dos catadores”, diz Pandora D’Áquila, 34, presidente da Associação dos Catadores do Aurá (Asca). Ela começou no lixão em 2010. “Eu vendia motos e fui lá para conhecer, pois conhecia pessoas que trabalhavam lá. Uma área muito grande. Pessoas trabalhando noite e dia. Foi um choque, mas eu fiquei lá, sentada, no meu cantinho, observando. Fui me entrosando e ficando”. Pandora lembra a época áurea do lixão: “Tinha conta pra pagar? Acabou o gás? O catador ia para lá, dava uma cavada e voltava com seus R$ 150,00 e comprava sua alimentação e seu gás. Ou ia de manhã, ficava à tarde e voltava no outro dia com seu dinheiro”. Agora, cada um trabalha por conta própria e se vira como pode. Ela afirmou estar passando necessidade. “Estou em um quartinho, que não tem banheiro e nem água, estou sem gás, sem alimentação. O quartinho, os meninos me deram. Por mais que a vida fosse difícil, a gente voltava de lá com o peixe, o frango. E ficava despreocupado. Ajudava a família”. 


Em 2012, Pandora e outros catadores fundaram a Associação dos Catadores do Aurá (Asca), hoje com de 250 associados. Durante um tempo, ela trabalhou na Prefeitura de Belém. Em certo momento, teve de escolher entre ficar no emprego e continuar na associação. Preferiu continuar lutando em defesa dos catadores. “Fui catadora e continuo sendo catadora”, afirma. Dos 894 catadores de Belém (havia dois mil atuando no lixão, incluindo os de Ananindeua e Marituba), ela diz que apenas 30 foram aproveitados pela Prefeitura de Belém e estão na coleta seletiva, um número que eles consideram pequeno. Muitos voltaram para seus estados e cidades de origem. “Havia catadores de vários bairros da cidade. Eles passavam a semana aqui e, no sábado, iam para suas casas, com o dinheiro garantido”, diz Pandora.


Ela afirma que, a partir do momento em que a lei previu o fechamento dos lixões no Brasil - Lei nº 12.305/10, que institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos -, representantes de todos os órgãos públicos (federais, estaduais e municipais) deveriam analisar como ficaria a situação dos catadores. “Elaborar um plano social e como iriam inserir os catadores no mercado de trabalho, como dariam esse suporte. Até hoje não foi feito. Não saiu do papel”. Ainda segundo ela, a Prefeitura organizou um curso de capacitação para os trabalhadores que não queriam mais continuar na coleta de recicláveis. Mas o certificado obtido nessa capacitação não tem valor, por ter o selo da Prefeitura. “Deveria ser só o selo da empresa que fazia o curso. Aí, não é válido. Não serve para nada. Venderam gato por lebre para o catador”, diz.


Pandora diz que a Asca tenta conseguir usar o galpão que há na área onde funcionava o lixão. “Esse galpão está sem uso, sem nada, um elefante branco. Estamos tentando fechar um contrato de trabalho com a Prefeitura para a gente conseguir o ganha pão de muitos trabalhadores. Eles coletariam os materiais recicláveis e levariam para lá. Fizemos um curso de agentes de resíduos sólidos pelo Senac, fizemos esse curso de capacitação”. Segundo os catadores, no lixão do Aurá estão sendo depositados apenas galhos de árvores e os resíduos retirados dos canais da cidade.


Belém foi uma das primeiras capitais a cumprir o prazo determinado no Plano Nacional de Resíduos Sólidos, que prevê o fechamento dos lixões em todo o país, informa a Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan). Durante todo o processo que culminou no encerramento das atividades do lixão do Aurá, que deixou de receber lixo domiciliar, a Prefeitura de Belém informa que deu todas as garantias para que os catadores do antigo lixão continuassem com sua fonte de renda. “Foram oferecidas oportunidades de qualificação profissional para quem pretendia continuar atuando na cadeia produtiva do reciclável, bem como para os trabalhadores que optaram por mudar de ramo ou atividade. Essas ações visaram incluir socialmente e produtivamente essas pessoas. Foram oferecidos cursos de capacitação por um período de 12 meses, que beneficiou moradores de Belém, identificados e cadastrados pela Prefeitura”, afirma.  Ainda segundo a Sesan, há um plano de expansão da coleta seletiva em Belém.

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